A Bíblia fala dos sonhos de José, que começaram por volta dos 17 anos.
Depois de ascender ao trono egípcio – que seria a consumação dos sonhos – a única referência que alguém possa considerar acerca de novos sonhos de José, seria implícita em relação a transportar seus ossos do Egito, até Canaã.
Logo é Israel que vai andar por décadas no deserto, carregando apenas os “ossos de um sonhador”!
Gostei de ouvir uma entrevista de Bibi Ferreira, sobre assuntos diversos, e uma das perguntas que respondeu foi “sobre se ainda teria muitos sonhos”, e a resposta de chofre foi: “Nunca tive! Aprendi a estudar, trabalhar e fazer o melhor de mim mesma, e as coisas foram simplesmente acontecendo em minha vida”.
Perfeito!
Sonhos são facilmente transportados no coração e mente dos jovens, mas à medida que o tempo passa, eles vão se tornando um fardo a mais, que convém – a bem de nossa sanidade – ser substituídos pelos pequenos confortos que poderemos encontrar aqui e acolá, na aridez dos nossos ossos ressecados pelos desertos.
Plantamos o trigo, recolhemos os grãos, nos banhamos pelo resplendor do sol, nos encantamos com o romantismo da lua, e fizemos poesias contando estrelas: que mais nos resta?
A bênção de poder dormir sem pensar, e o descanso de uma noite sem sonhos.
Nossas pernas estão por demais cansadas para subir naquela escada trafegada por espíritos imortais, e até uma pedra, por mais áspera que seja poderá nos servir de travesseiro.
Afinal, a vida por si só, é um enorme sonho – é claro também pesadelo – mas como diz Belchior: “Viver é melhor que Sonhar”!
José sonhou muito, o bastante, e chega um tempo que é mister parar de sonhar, viver o que se cultivou, tentar desfrutar o que resta da vida, e abrir espaço para que outros sonhem.
A vida é ampla demais, e outros poetas e sonhadores loucos, vão também compor suas melodias, entabular seus versos, pincelar o mundo com suas cores, recriando a realidade, dando sua interpretação dos fatos, escrevendo a história.
Mas e os ossos de José?
É preciso muito cuidado: os cães selvagens dos desertos não entendem nada de sonhos, mas não dispensam roer um bom osso.
Darckson Lira. |