Copérnico nos tirou a idéia megalômana de que a Terra seria o centro do universo e Darwin deu o “tiro de misericórdia” quando afirmou que somos “amebas evoluídas”.
Como animais “evoluídos” que rebelam-se constantemente contra a circunscrição em que foi posto pela natureza, vivemos em permanente conflito com nossos instintos - em constantes choques com alguma coisa a mais que desenvolvemos e que chamamos de cérebro neocortical -, com todo aquele drama na consciência resultante do embate entre a racionalidade e o desejo!
E desejamos SER!
Acalentamos a ilusão de que somos importantes e gostaríamos de imaginar que nossa ausência será sentida neste mundo quando partirmos dele – a verdade?
Somos todos dispensáveis!
Centenas de cardeais estão prontos para substituir qualquer papa, milhões de políticos estão a postos para tomar o lugar de qualquer presidente, jogadores aguardam ansiosos a saída de outro atleta para entrar em campo e, de uma forma ou de outra, o mundo seguirá seu rumo e as pessoas continuarão sua caminhada independente de nós.
É verdade que ninguém é igual, que em certo sentido somos únicos, mas ponhamos um freio em nossas pretensões: o cemitério está abarrotado de “pessoas indispensáveis”...
Sejamos gratos por estar vivos e em podermos realizar alguma coisa de significativo neste mundo.
Acho que foi em algum momento como esse desta reflexão que o salmista Davi reconsiderou sua importância e exclamou: “Que é o homem para que dele te lembres?”.
Chega de conversa. Vou deixar-lhes com Fernando Pessoa:
Quando vier a Primavera,
Se eu já estiver morto,
As flores florirão da mesma maneira
E as árvores não serão menos verdes que na Primavera passada.
A realidade não precisa de mim.
Sinto uma alegria enorme
Ao pensar que a minha morte não tem importância nenhuma.
Se soubesse que amanhã morria
E a Primavera era depois de amanhã,
Morreria contente, porque ela era depois de amanhã.
Se esse é o seu tempo, quando havia ela de vir senão no seu tempo?
Gosto que tudo seja real e que tudo esteja certo;
E gosto porque assim seria, mesmo que eu não gostasse.
Por isso, se morrer agora, morro contente,
Porque tudo é real e tudo está certo.
Podem rezar latim sobre o meu caixão, se quiserem.
Se quiserem, podem dançar e cantar à roda dele.
Não tenho preferências para quando já não puder ter preferências.
O que for, quando for, é que será o que é. |