Que as religiões são instrumentos utilizados há séculos para sujeitar a subjetividade humana - com a introspecção de conceitos e idéias que nada mais são que ferramentas de dominação - e que as Igrejas transformaram-se quase (a totalidade) em comércios e empresas que têm como produto a crença, só não vê quem não quer!
Alguns idealistas sobrevivem, e de uma forma ou de outra, sejam em que sentido for, importa-nos lembrar as imortais palavras de Jesus Cristo: “passarão os céus e a terra, mas as minhas palavras não hão de passar”.
A despeito do mau uso que se faça delas, das propositais ou ignorantes distorções, infiltrações, eisegese (não exegese) e manipulação desonesta - que pretendem dar aos textos um sentido que efetivamente não têm – é certo que as palavras do revolucionário Nazareno, vão sobrevivendo ao tempo que a tudo desgasta.
Se a questão fundamental da Igreja em sua luta e missão, fosse confrontar somente os inimigos externos que ameaçam sua sobrevivência, haveria motivos para estarmos mais esperançosos.
O problema é que com o passar dos tempos a mensagem foi “ adocicada”, perdeu a textura (“arrancamos as garras e dentes do Evangelho”) como conseqüência disso, só nos restou um placebo com eficácia quase nula!
Unir-se a alguma denominação ou grupo, submeter-se a certos ritos ou procedimentos, abraçar algumas verdades teóricas substituiu a experiência chamada de “Novo Nascimento”, gerando essas coisas esdrúxulas que chamam de “igreja”, com seus shows e toda uma estrutura que jamais pode transpor o limiar da materialidade, entrando na dimensão metafísica do Reino de Deus.
A Igreja hoje em dia é uma espécie de prestadora de serviços, uma agência empresarial, uma clínica que se propõe a tratar as pessoas de enfermidades, vendendo suas mercadorias.
Ela supre de forma massiva, a falta de acessos que o homem e mulher comuns têm aos médicos – principalmente voltados para a área psicológica – trabalhando como clínica psiquiátrica ou centro de ajuda a toda classe de desajustados sociais.
Em certo sentido (principalmente na realidade atual) os velhos Freud e Marx não estavam errados em suas idéias de religião!
Daí muitos de nós chegarmos à constatação, de que “igrejas não são o céu e os que as freqüentam não são anjos”!
Costumo dizer – para a ira de muitos -, que não devemos imaginar que estamos nas Igrejas porque sejamos de algum modo melhores que os chamados “pecadores” que estão lá fora: muito pelo contrário, Deus teve misericórdia do mundo e tirou um montão de loucos e problemáticos de lá, porque afinal, nem sei se o mundo ainda existiria sem essa “ divina providência”.
O problema é: as relações em um ambiente aonde a maioria veio em busca de soluções para seus males eminentemente psíquicos ou de fundo emocional, é a garantia de que muitas dificuldades terão de viver os que convivem ali: aquele veio por ser neurótico, o outro tem surtos esquizofrênicos, aquele tem sérios problemas com desequilíbrio emocional, enquanto outro sofre com a bipolaridade e outra com depressão. Isso para não falar daquele que tem baixa auto-estima e aquele outro que sofre de síndrome maníaca!
Junte todos esses ingredientes aos que estão ali fugindo de si mesmos – não conseguem nem encontrar a si mesmos, imagine a Deus – e uma infinidade de gente utilizando as fórmulas religiosas para reprimir ou sublimar seus “instintos básicos” e ai está: já temos uma noção ainda que imprecisa, de como vai ficar esse bolo!
Sou daqueles que ainda crêem, que a religião quando utilizada corretamente e levada a sério – note bem, não estou a referir-me àquelas que enchem as pessoas de mais neuroses e perturbações fanáticas – e se vivida na busca de equilíbrio com tudo mais que nos cerca, pode ser sim, uma fonte terapêutica ou eficaz auxílio para a mente humana.
Mas quando ela vem apenas como “tapa-buracos”, quando a relação de cada ser humano com seu Criador começa a passar pela burocracia e controle de “líderes” que se lhes interpõem e usam o chicote do terror para mantê-los em obediência - como quando éramos crianças e nos metiam medo - desvirtuando a própria imagem paternal de Deus, ai está o mal: algo deixou de ser religião e degenerou-se em crença supersticiosa!
E isso é o que mais o mundo tem.
Darckson Lira. |