Vivemos PELA FÉ, embora nem sempre tenhamos certeza dela.
Por ser um elemento que – pode ou não – em certa medida estar presente na Razão, a ela transcende em ação e definição.
De forma surpreendente e súbita, pode brotar em meio aos momentos de maiores incertezas, sendo ela mesma, repleta de conteúdos irracionais.
Terra que dá firmeza aos pés, certeza calcada sob nossos passos, é também o ar não visto, mas que oferece resistência e suporte às nossas asas, o aparentemente - inexistente, o irreal que a gente sente e não entende, o que é invisível, mas evidente!
Como coisa que não se explica, desisti de tentar fazer outras pessoas crerem, da forma que creio ou gostaria que cressem.
Mesmo porque minha Fé, quase nunca é calmaria, ela é incômoda, inquieta e me desafia constantemente.
Tenho sentido que ela me impele a prosseguir, mesmo quando me falta clareza, quando careço de firmeza diante de todas as incertezas.
A ausência de respostas (seriam elas as próprias?) perturba-me, mas encoraja-me saber que não estou sozinho a navegar nesse mar de interrogações.
Os profetas e santos da história, eram acometidos de freqüentes e inquietantes duvidas. Assim sendo, as próprias dúvidas que tiveram, alimentam minha decisão de prosseguir crendo como eles fizeram!
A encantadora poetisa Cecília Meireles descreve um pouco esse emaranhado de razões, noções, impulsos, instintos que cercam a eterna e indecifrável esfinge que somos nessa arrebatadora aura de mistérios:
“ Entre mim e mim, há vastidões bastantes
para a navegação dos meus desejos afligidos.
Descem pela água minhas naves revestidas de espelhos.
Cada lâmina arrisca um olhar, e investiga o elemento que
a atinge.
Mas, nesta aventura do sonho exposto à correnteza,
só recolho o gosto infinito das respostas que não se
encontram.
Virei-me sobre a minha própria existência, e contemplei-a
Minha virtude era esta errância por mares contraditórios,
e este abandono para além da felicidade e da beleza.
Ó meu Deus, isto é a minha alma:
qualquer coisa que flutua sobre este corpo efêmero e
precário,
como o vento largo do oceano sobre a areia passiva e
inúmera... “
E já que estou recebendo e-mails de pessoas estimulando-me a seguir nesse estilo, revelando que nem sempre o que chamamos de “sabedoria deste mundo” está em desacordo com a “Sabedoria do Alto”, antes é derivada dela, deixo-lhes desta vez, com Leon Tolstoy:
(...) 'Este segredo só tem importância para mim, e palavra alguma o poderia explicar. Este novo sentimento não me modificou, não me deslumbrou, nem me tornou feliz, como eu supunha. Sucedeu a mesma coisa com o amor paternal, que não foi acompanhado de surpresa ou de deslumbramento. Devo chamar-lhe fé? Não sei. Sei apenas que me penetrou na alma através do sofrimento e nela se implantou com toda a firmeza. Continuarei, sem dúvida, a impacientar-me com o meu cocheiro Ivan, a discutir inutilmente, a exprimir mal as minhas próprias idéias. Sentirei sempre uma barreira entre o santuário da minha alma e a alma dos outros, mesmo a da minha própria mulher. Sempre tornarei Kitty responsável dos meus terrores, arrependendo-me logo em seguida. Continuarei a rezar sem saber porque rezo. Que importa! A minha vida não estará mais à mercê dos acontecimentos, cada minuto da minha vida terá um sentido incontestável. Agora possuirá o sentido indubitável do bem que eu sou capaz de difundir!' |